Laís Modelli

Conhecer a história do Brasil pode ser algo muito saboroso. Literalmente, uma vez que preparos de comidas típicas muitas vezes preservam sabores históricos, que ajudaram a formar a identidade regional brasileira.
Em Salvador, por exemplo, a maneira como as baianas vendem o acarajé nas ruas - com a iguaria exposta sobre o tabuleiro e as mulheres vestidas de branco com adereços coloridos - não é só "para turista ver", mas também uma referência histórica à época em que escravas lutavam pela alforria e se lançavam em atividades comerciais em busca da tão sonhada independência.
No Piauí, por sua vez, a cajuína é bebida popular que confere identidade às comunidades locais. Feita a partir do suco do caju separado do seu tanino, coado várias vezes em redes ou funis de pano e então cozido em banho-maria em garrafas de vidro até que seus açúcares sejam caramelizados, a cajuína já foi uma bebida de status social, servida como presente de boas vindas aos que retornavam ao Estado, e hoje é usada para consumo familiar ou para ser vendida, gerando fonte de renda.
Resultado de séculos de utilização, em que o caju foi usado de maneira diversa em toda na região - desde os povos indígenas até hoje -, a cajuína envolve um conhecimento popular tão específico e complexo que chega a ser difícil classificá-la para quem nunca experimentou: não se trata de uma bebida alcoólica, nem de um refrigerante e muito menos de um simples suco de caju.
Ao lado da produção tradicional da cajuína no Piauí, o ofício das baianas do acarajé é, assim como a produção artesanal do queijo de Minas, considerado patrimônio imaterial da cultura brasileira, com registro no Iphan, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Até o momento, esses são os únicos elementos de nossa culinária registrados pelo órgão. Há outros preparos em fase de avaliação, como a confecção de doces típicos de Pelotas (RS).


